Era uma vez uma Rosa

Christine Castilho Fontelles *

“Qual a cor desta azaléia?”
“É da cor que todo mundo gosta”, respondeu, mais com os olhos do que com as palavras. Evidente, claro, como se outra não pudesse ser a razão de ser daquela expressão da natureza. Eu mergulhei nos seus olhos verdes e vi a flor, vi vermelha. Pouco importava a cor. Mais alguns passos, lentos; caminhava o caminho de uma vida. Sentamos no banco em silêncio; quase tudo era silêncio àquela altura da sua vida. Sua mente calava aos poucos. Eu imaginava que era como andar pra trás, de costas. Era o Alzheimer, que pouco a pouco me roubava da memória de minha mãe e ela de mim. Ao menos foi assim que cheguei a pensar. Mas mais uma e intensa vez ainda ela me ensinaria de novo e preencheria minha vida de mais significado. E mais uma vez eu lhe seria eternamente grata.

Durante toda a sua vida cuidou da nossa no mínimo detalhe. Tocasse onde tocasse com suas mãos, era evidente o cuidado, transparente, natural. Absolutamente natural. Assim tudo o que cozinhava virava iguaria, toda roupa que costurava traduzia delicadeza e bom gosto, todo toque de sua mão na nossa mão anunciava segurança. Ela era o nosso porto, de onde partíamos e para onde regressávamos saudosos de seu amor silencioso. Nada mais estranho, então, essa sua lenta partida para um momento de memória onde não tínhamos lugar.

Sentamos no banco, um daqueles de parque, típicos, com ripas de madeira. Ficava bem em frente à janela de seu quarto. Cabiam três, mas estávamos nós duas. Fiquei bem pertinho, passei meu braço por trás dela, sua cabeça encontrou meu ombro e, enquanto lhe falava, dormiu. Tinha saído de casa para estar com ela naquela manhã e assim adubar com a esperança de um zeloso jardineiro as imagens das nossas lembranças. Ela dormiu, por um longo tempo. Eu fiquei zelando seu sono. Quando despertou, me olhou longa e carinhosamente com seus enormes olhos verdes. Não sei se ela sabia exatamente quem eu era. Mas naquele momento não teve a menor importância. Seu olhar me agradecia a delicadeza daquele presente inesperado: um sono tranquilo. Foi a primeira vez na vida que me senti profundamente feliz por dar uma oportunidade de um sono tranquilo em meio ao turbilhão que, no caso dela, era ocasionado pela doença. Anos mais tarde, reencontraria essa evidente o cuidado, transparente, natural. Absolutamente natural. Assim tudo o que cozinhava virava iguaria, toda roupa que costurava traduzia delicadeza e bom gosto, todo toque de sua mão na nossa mão anunciava segurança. Ela era o nosso porto, de onde partíamos e para onde regressávamos saudosos de seu amor silencioso. Nada mais estranho, então, essa sua lenta partida para um momento de memória onde não tínhamos lugar.

Sentamos no banco, um daqueles de parque, típicos, com ripas de madeira. Ficava bem em frente à janela de seu quarto. Cabiam três, mas estávamos nós duas. Fiquei bem pertinho, passei meu braço por trás dela, sua cabeça encontrou meu ombro e, enquanto lhe falava, dormiu. Tinha saído de casa para estar com ela naquela manhã e assim adubar com a esperança de um zeloso jardineiro as imagens das nossas lembranças. Ela dormiu, por um longo tempo. Eu fiquei zelando seu sono. Quando despertou, me olhou longa e carinhosamente com seus enormes olhos verdes. Não sei se ela sabia exatamente quem eu era. Mas naquele momento não teve a menor importância. Seu olhar me agradecia a delicadeza daquele presente inesperado: um sono tranquilo. Foi a primeira vez na vida que me senti profundamente feliz por dar uma oportunidade de um sono tranquilo em meio ao turbilhão que, no caso dela, era ocasionado pela doença. Anos mais tarde, reencontraria essa mesma privilegiada sensação, desta vez com minha filha. Era noite de intenso temporal, acordei com o barulho da chuva e dos trovões, desci as escadas já prevendo o medo que ela, bem pequena, deveria estar sentindo por causa de toda aquela barulheira. Abri a porta e a vi, tranquilamente, dormindo. E eu me lembrei por que: sabia-se amparada, segura. Amor é palavra intransitiva. E uma vez mais aprendi com minha mãe que há muitas formas de a vida acontecer e tecer seu curso de cuidados nas relações humanas: tudo por causa do amor, que nos restaura, nos ensina, nos revela as muitas e variadas formas de manter-se conectado ao outro, de cuidar. Como li recentemente: “se o amor é a resposta, qual é mesmo a pergunta?”.

* Cientista social pela PUC de São Paulo, possui MBA em Marketing pela FIA/FEA/USP, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, conselheira da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e do Movimento por um Brasil Literário.

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